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Dostoiévski, Orwell e o Estado-Moloch: o absurdo de ser cidadão em tempos de espelhos distorcidos

A política, como um palco onde se encenam tragédias gregas modernas, revela seu enredo mais cru quando os atores, trocando de papéis, tornam-se espelhos distorcidos de suas próprias críticas. Os democratas, em sua Cassandra moderna, previram que Trump era um Narciso intoxicado pelo próprio reflexo, um Édipo que, em vez de resolver enigmas, os multiplicava. E eis que, em poucos dias, o tirano de comédia shakespeariano confirmou o oráculo: seu reinado foi um interlúdio caótico entre a farsa e o horror, como bem captou Kafka em O Processo — "Diante da lei, há um guardião. Um homem do campo chega e pede para entrar. Mas o guardião não o deixa..." — assim são os poderosos: guardiães de portais que só abrem para si mesmos.




No Brasil, Bolsonaro surgiu como um Quixote tropical, prometendo moinhos de vento liberais e cavalarias anticorrupção. A esquerda, porém, leu em voz alta o mesmo capítulo de 1984: "Quem controla o passado controla o futuro. Quem controla o presente controla o passado". Seu governo não foi uma epopeia, mas um conto de Cortázar — labiríntico, absurdo, onde a truculência e o delírio se fundiam em atos falhos institucionais. A caricatura prevaleceu, como se o realismo mágico de García Márquez tivesse invadido o Planalto.


Mas a inversão é perversa. Os republicanos, em coro com os conservadores brasileiros, acusam os adversários de serem Sísifos da recessão, rolando pedras de "lacração" e "globalismo" morro acima, enquanto o povo espera Prometeu por um fogo que nunca chega. Lula e o PT, por sua vez, são pintados como os Grandes Inquisidores de Dostoiévski — "Oferecemos ao homem a felicidade da escravidão tranquila" —, adulando tiranias enquanto a economia desaba como um conto de Poe, com seus corações soturnos e paredes que desmoronam.


A oposição, em qualquer latitude, parece habitar o território de A Insustentável Leveza do Ser: só tem razão enquanto flutua no vácuo do discurso, antes de ser tragada pelo peso do poder. A direita torna-se a sátira que a esquerda esboçou; a esquerda, o pesadelo que a direita denunciou. É o jogo dialético de Hegel em loop infinito: tese e antítese gerando uma síntese que sangra.


Não sou um "centrista iluminado" à la Thomas Mann, nem um utopista de Terra do Nunca. Sou um Bartleby qualquer, repetindo "preferiria não" diante de um sistema que, como em Admirável Mundo Novo, oferece soma e orgy-porgy em troca de alma. Kafka, mais uma vez, dá o diagnóstico: "Não é necessário que saias de casa. Permanece em tua mesa e ouve. Nem mesmo ouças, apenas espera. Nem mesmo esperes, fica absolutamente quieto e sozinho. O mundo irá oferecer-se a ti para ser desmascarado".

No fim, como escreveu Brecht em A Vida de Galileu, "Infeliz a terra que precisa de heróis". Não se trata de esquerda ou direita, mas do abismo entre os que são o Estado — esses Molochs devoradores de sonhos, como nos versos de Drummond — e os que habitam o Estado, esmagados sob a roda da história. Enquanto isso, seguimos, como os personagens de Beckett em Esperando Godot, sentados na estrada poeirenta, olhando para o relógio quebrado do tempo, sabendo que Godot nunca virá. Mas seguimos. Porque respirar no Brasil já é um ato de resistência.

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